Prostatectomia radical: Efeitos Secundários e Alternativas
- Dr. Sanches Magalhães
- 4 de jul.
- 5 min de leitura
Por Dr. José Sanches Magalhães — Urologia Oncológica, Instituto de Terapia Focal da Próstata (Porto)
Quando um homem recebe o diagnóstico de cancro da próstata localizado, a prostatectomia radical — remoção cirúrgica de toda a glândula — continua a ser um dos tratamentos mais propostos. É uma operação eficaz no controlo do tumor. Mas tem um preço funcional que muitos doentes só compreendem depois: os dois efeitos secundários que mais afetam a qualidade de vida são a incontinência urinária e a disfunção erétil.
Neste artigo explico, de forma honesta, que efeitos secundários esperar de uma prostatectomia, com que frequência acontecem segundo os estudos mais recentes, e que alternativas — como a terapia focal — permitem tratar o cancro preservando muito mais função. O objetivo não é assustar nem vender: é dar-lhe informação para uma decisão informada.
Que efeitos secundários tem a prostatectomia radical?
A próstata está rodeada por duas estruturas delicadas: o esfíncter urinário, que controla a continência, e os feixes neurovasculares, os nervos responsáveis pela ereção. Remover toda a próstata implica trabalhar em contacto direto com ambos — daí os dois efeitos secundários principais.
Incontinência urinária — perda involuntária de urina, sobretudo em esforço (tossir, levantar peso). É frequente nas primeiras semanas e melhora ao longo do primeiro ano na maioria dos casos, mas nem sempre resolve por completo.
Disfunção erétil — dificuldade em obter ou manter uma ereção. Depende muito de se conseguir preservar os nervos (a chamada cirurgia com preservação nervosa), o que nem sempre é possível sem comprometer o controlo do tumor.
Outros efeitos possíveis incluem encurtamento peniano, alterações do orgasmo, ausência de ejaculação e, raramente, complicações cirúrgicas gerais como hemorragia ou infeção.

Com que frequência acontecem? O que dizem os dados
É aqui que convém olhar para números, e não para impressões. Um dos maiores estudos prospetivos comparativos recentes — o HIFI Trial (European Urology, 2024, com 3 328 doentes) — comparou a prostatectomia radical com um tratamento focal ablativo. Aos 12 meses:
Deterioração da continência urinária: 44% dos doentes operados, contra 29% no grupo de tratamento ablativo.
Perda de função erétil (pontuação IIEF-5): uma redução mediana de 13 pontos após prostatectomia, contra 7 no grupo ablativo.
Mesmo com as técnicas cirúrgicas mais avançadas o problema persiste. O ensaio NeuroSAFE PROOF (Lancet Oncology, 2025), que testou uma técnica de preservação nervosa guiada em tempo real, mostrou que, mesmo no melhor cenário, a função erétil média aos 12 meses permanecia significativamente reduzida face ao ponto de partida.
Do outro lado da balança, um ensaio dedicado especificamente à Eletroporação Irreversível (IRE) — o estudo PRESERVE, publicado na European Urology em janeiro de 2026, com 121 doentes de risco intermédio — mostrou um perfil funcional muito diferente. Aos 12 meses após IRE:
84% dos homens com boa função sexual antes do tratamento mantiveram ereções suficientes para uma relação.
A função urinária manteve-se praticamente inalterada, com variação mínima nas escalas de sintomas.
Convém ser rigoroso: são estudos diferentes, com doentes diferentes. O que os dados mostram com clareza é o padrão: tratar toda a próstata acarreta um custo funcional elevado e frequente; tratar apenas a zona doente preserva muito mais função.
A leitura honesta é esta: a prostatectomia controla bem o cancro, mas o custo funcional é real e frequente — mesmo em mãos experientes e com tecnologia robótica.
Nota importante: estes números referem-se a médias de grandes grupos. O seu risco individual depende da sua idade, da função antes do tratamento, das características do tumor e da experiência da equipa. Nenhum artigo substitui uma avaliação personalizada.
Porque é que a terapia focal reduz estes efeitos secundários
A lógica é simples: se o dano funcional vem de tratar toda a próstata, tratar apenas a zona doente reduz esse dano.
A terapia focal — como a Eletroporação Irreversível (IRE), técnica em que fomos pioneiros em Portugal — destrói seletivamente a área do tumor, poupando o tecido saudável, o esfíncter urinário e, sempre que possível, os feixes neurovasculares. Não é cirurgia e não usa radiação.
O princípio já é rotina noutros órgãos: no cancro da mama ou do rim, tratar de forma conservadora em vez de remover o órgão inteiro é hoje o padrão em muitos casos. A próstata seguiu o mesmo caminho — permitido por um diagnóstico muito mais preciso, com ressonância magnética multiparamétrica e biópsia de fusão transperineal, que localizam o tumor com rigor milimétrico.
Vantagens práticas da abordagem focal:
Efeitos secundários urinários e sexuais mínimos ou ausentes na maioria dos doentes.
Procedimento de 30 a 90 minutos, em regra com alta no mesmo dia.
Recuperação rápida da rotina normal.
Possibilidade de repetir o tratamento ou de recorrer a cirurgia ou radioterapia depois, se necessário — não queima pontes.
A terapia focal serve para todos os doentes?
Não — e seria desonesto dizer que sim. A terapia focal é indicada sobretudo em cancro da próstata localizado, de baixo e intermédio risco, com o tumor bem identificado por imagem. Em doença mais avançada, multifocal ou de alto risco, outras estratégias — incluindo a prostatectomia — podem ser a escolha certa.
A decisão terapêutica deve ser sempre individualizada e acompanhada por um especialista com experiência em urologia oncológica. É por isso que o primeiro passo nunca é escolher o tratamento — é fazer um diagnóstico de precisão e discutir, caso a caso, o equilíbrio entre controlar o cancro e preservar a qualidade de vida.
Perguntas frequentes
A incontinência depois da prostatectomia é permanente?
Na maioria dos casos melhora ao longo do primeiro ano, com ajuda de exercícios de reeducação do pavimento pélvico. Numa minoria dos doentes persiste e pode exigir tratamento adicional.
Todos os homens ficam com disfunção erétil após a cirurgia?
Não todos, mas é frequente. O risco depende da idade, da função sexual antes da operação e de se conseguir preservar os nervos. Mesmo com preservação nervosa, a recuperação pode levar meses a anos e nem sempre é completa.
A terapia focal (IRE) trata o cancro tão bem como a cirurgia?
Em doentes bem selecionados, há bom controlo do tumor com muito menos efeitos secundários. No ensaio PRESERVE, 84% dos doentes de risco intermédio tiveram biópsia negativa na zona tratada aos 12 meses (critério de consenso), com preservação da função urinária e sexual na grande maioria. A seleção correta do doente é o fator decisivo — e é isso que avaliamos em consulta.
Posso fazer cirurgia mais tarde se a terapia focal não resultar?
Sim. Uma das vantagens da terapia focal é manter todas as opções em aberto: se necessário, pode recorrer-se depois a nova terapia focal, cirurgia ou radioterapia.
Onde posso ser avaliado?
No Instituto de Terapia Focal da Próstata, no Porto. A avaliação começa por um diagnóstico de precisão para perceber se é candidato a tratamento focal.
Se foi diagnosticado com cancro da próstata e quer perceber que opções tem antes de decidir, agende uma consulta. Avaliamos o seu caso e explicamos, com franqueza, os prós e contras de cada tratamento.
Artigo da autoria do Dr. José Sanches Magalhães, Assistente Graduado de Urologia no IPO-Porto e diretor do Instituto de Terapia Focal da Próstata.
Referências
George AK, et al. Irreversible Electroporation for Prostate Tissue Ablation in Patients with Intermediate-risk Prostate Cancer: Results from the PRESERVE Trial. Eur Urol. 2026;89(1):57-68. https://doi.org/10.1016/j.eururo.2025.06.003
Ploussard G, et al. Whole-gland or Subtotal HIFU Versus Radical Prostatectomy: The HIFI Trial. Eur Urol. 2024. https://doi.org/10.1016/j.eururo.2024.11.006
Dinneen E, et al. NeuroSAFE-guided RARP versus standard RARP (NeuroSAFE PROOF). Lancet Oncol. 2025. https://doi.org/10.1016/S1470-2045(25)00091-9
EAU Guidelines on Prostate Cancer — https://uroweb.org/guidelines/prostate-cancer




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