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Os Três Princípios do IRE no Cancro da Próstata — Notas do Workshop do II Congresso de Urologia Oncológica 2026

Declaração de conflito de interesses: Sou orador convidado deste workshop e recebo honorários da Surgnova como apoio à sessão. O conteúdo científico é independente e baseado em literatura revista por pares (PRESERVE Trial, Eur Urol 2026). As referências completas encontram-se no final deste artigo.

Na tarde de 7 de Maio de 2026, entre as 18h00 e as 18h30, tive o privilégio de apresentar o Workshop 4 — «Eletroporação Irreversível (IRE)» — no âmbito do II Congresso Português de Urologia Oncológica. A sala estava cheia, o que me agradou: urologistas, oncologistas e radiologistas de intervenção que não se coibiram de fazer perguntas rigorosas e, por vezes, difíceis. É exactamente o tipo de debate de que a medicina necessita. Prometi nesse dia publicar um resumo acessível ao público geral — e este artigo cumpre essa promessa.

Sei que muitos dos que chegam a este texto não são médicos. São doentes que receberam um diagnóstico recente, ou familiares que os acompanham nesta jornada e que querem perceber, com alguma profundidade, o que significa a sigla IRE e porque razão ela pode ser relevante para a sua situação. Para todos eles escrevo com a mesma clareza que procuro ter no consultório: sem minimizar a complexidade, mas também sem tornar o conhecimento inacessível.

Nas secções seguintes desenvolvo cada um dos três princípios que apresentei no workshop, com os dados clínicos mais recentes e com a linguagem mais próxima possível da conversa que tenho com os meus doentes quando se sentam à minha frente, frequentemente acompanhados pela pessoa que mais os apoia.

1. O IRE Mata por Campo Eléctrico — Preserva a Matriz

Distribuição do campo eléctrico do IRE em volta dos eléctrodos — as zonas críticas (NVB, uretra, parede rectal) ficam em isodose subletal por desenho.

O mecanismo físico em linguagem acessível

Todos os tratamentos ablativos têm de destruir as células tumorais — nisso estamos todos de acordo. A questão decisiva, e aquela que faz toda a diferença na qualidade de vida após o tratamento, é: o quê é que destroem além das células? A crioterapia e o HIFU actuam por temperatura — congelam ou cozem o tecido, respectivamente. O resultado é necrose térmica: destroem células, vasos, nervos e colagénio de forma indiferenciada numa zona de ablação. São técnicas eficazes, mas o preço funcional pode ser considerável — e é um preço que os doentes pagam todos os dias, nas suas vidas concretas.

A eletroporação irreversível (IRE) funciona de forma radicalmente diferente. Os eléctrodos geram impulsos eléctricos de curtíssima duração — estamos a falar de microssegundos — e elevada amplitude (1 500–3 000 V/cm). Este campo eléctrico cria poros permanentes na membrana lipídica das células tumorais, perturbando o seu equilíbrio iónico de forma irreparável e desencadeando um processo de apoptose, ou seja, morte celular programada. A célula morre, mas por perturbação da membrana, não por calor. Esta distinção não é um pormenor académico — é o fundamento de tudo o resto.

Gosto de usar esta analogia quando explico o mecanismo aos meus doentes: imagine uma folha de papel com texto impresso. O calor queima a folha — destrói o papel e a tinta ao mesmo tempo, sem discriminação. O IRE é como um solvente selectivo que dissolve apenas a tinta, deixando o papel intacto. No contexto prostático, o «papel» é a matriz extracelular — o colagénio, os vasos sanguíneos, os ductos — e, crucialmente, os feixes neurovasculares que determinam a continência urinária e a função eréctil. São estes que queremos, a todo o custo, preservar.

Por que a matriz sobrevive

Isto não é apenas teoria. Van den Bos demonstrou histologicamente, na sua tese de doutoramento em Utrecht (2016), que após IRE a arquitectura vascular e o esqueleto colagénico da próstata permanecem morfologicamente intactos na zona ablada — podemos observá-lo ao microscópio. Lebastchi et al. (JAMA Surg 2021) confirmaram que a uretra e os ductos ejaculatórios, quando correctamente posicionados fora da isodose letal, mantêm integridade funcional após o procedimento.

Esta distinção tem consequências práticas muito concretas para os doentes. É a razão pela qual, em muitos casos, a recuperação da continência urinária começa ainda antes de saírem do bloco operatório, e pela qual a actividade sexual pode ser retomada em semanas, não em meses ou anos. Não é magia — é física aplicada com precisão cirúrgica. E é, em muitos casos, o factor que inclina a balança na decisão de tratamento.

2. A Preservação NVB / Uretra é Consequência Directa, Não Acessória

A geometria do campo como ferramenta de preservação

Um dos erros conceptuais mais comuns que ouço — mesmo entre colegas urologistas com vasta experiência — é descrever a preservação dos feixes neurovasculares (NVB) como uma «vantagem adicional» do IRE, quase como um bónus inesperado. É uma formulação que inverte completamente a lógica do procedimento. A preservação NVB não é um bónus: é uma consequência directa e planeada da geometria do campo eléctrico. Quando compreendemos isto, compreendemos o que torna o IRE diferente.

Quando posiciono os eléctrodos no template transperineal, estou essencialmente a desenhar um campo eléctrico tridimensional à volta do tumor. A isodose letal — a fronteira acima da qual a célula não sobrevive — é configurável com precisão. As estruturas que ficam sistematicamente abaixo dessa fronteira são exactamente aquelas que mais importa proteger: os feixes neurovasculares postero-laterais, a uretra e a parede anterior do recto. Esta geometria não é acidente nem sorte; é o plano terapêutico, definido antes de o doente entrar no bloco operatório.

Os dados do PRESERVE Trial (n=121, Eur Urol 2026)

O estudo de referência que apresentei no workshop foi o PRESERVE Trial, publicado por George AK et al. na European Urology em 2026 (89:57–68). Com 121 doentes e seguimento a 12 meses, representa actualmente o nível de evidência mais robusto disponível para IRE focal. Os resultados funcionais são os mais sólidos já publicados para esta técnica:

  • Continência urinária: 96% dos doentes estavam pad-free — sem necessidade de penso — aos 12 meses (IC 95%: 91–99%). O score IPSS médio melhorou de 8 (baseline) para 6 aos 12 meses. Uma melhoria de 2 pontos que, embora modesta em valor absoluto, reflecte algo muito importante: ausência de deterioração pós-ablação. Os doentes não ficaram pior do que estavam antes.

  • Função eréctil: 84% dos doentes com função eréctil normal no momento do diagnóstico mantiveram erecções suficientes para penetração aos 12 meses. O score IIEF-5 desceu de 16.0 (baseline) para 12.1 aos 6 meses — uma queda esperada, correspondente à fase inflamatória do pós-operatório — e recuperou para aproximadamente 14.5 aos 12 meses. Este padrão de recuperação progressiva é característico do IRE e é algo que explico sempre aos doentes antes da cirurgia, para que saibam o que esperar em cada fase.

Estes números ganham ainda mais peso quando consideramos que o PRESERVE Trial não se limitou a doentes de baixo risco. Incluiu doentes com doença intermediária favorável e desfavorável (Gleason 3+4 e 4+3), o que torna os resultados mais representativos da população real que vejo no consultório.

Resultados oncológicos a 12 meses

Do ponto de vista oncológico, os dados do PRESERVE mostram que 71% dos doentes tinham biópsia in-field negativa aos 12 meses, e 84% eram negativos pelos critérios Delphi de definição de falha. São resultados encorajadores — e quero ser honesto sobre o que significam e sobre o que ainda não sabemos: o seguimento a 12 meses não nos permite tirar conclusões definitivas sobre controlo da doença a 5 ou 10 anos. Nenhum de nós, com integridade científica, pode prometer isso ainda. Aguardamos os dados de seguimento alargado com a mesma atenção crítica com que avaliamos qualquer intervenção oncológica — e partilharei esses dados aqui quando estiverem disponíveis.

Para uma visão detalhada do procedimento tal como é realizado no ITFP, convido-o a consultar a página de tratamento IRE no ITFP.

3. O Paralelismo é Condição, Não Cosmética

A disciplina geométrica do template transperineal

O terceiro princípio foi, sem dúvida, o que gerou mais discussão no workshop — e percebo perfeitamente porquê. Quando se fala de «paralelismo rigoroso dos eléctrodos», soa a pormenor técnico menor, quase burocrático. Quero explicar, com clareza, por que razão não é nada disso.

O campo eléctrico gerado entre dois eléctrodos distribui-se de forma previsível apenas quando estes são paralelos entre si. Uma divergência de poucos graus — algo que parece insignificante ao olho nu — altera a distribuição das isodoses de forma não-linear: zonas que deveriam estar em isodose subletal entram na zona letal (com risco real de lesão uretral ou rectal), e zonas que deveriam ser completamente abladas ficam sub-tratadas (com risco de doença residual). Não existe margem de erro aceitável neste ponto. É a diferença entre um procedimento seguro e eficaz, e um procedimento com complicações evitáveis.

A imagem abaixo ilustra exactamente este princípio: a distribuição das isodoses em torno dos eléctrodos paralelos coloca as estruturas críticas — NVB, uretra, parede rectal — sistematicamente fora da zona letal. Quando o paralelismo falha, esta geometria desfaz-se.

Template transperineal como garantia técnica

A abordagem transperineal — que utilizamos sistematicamente no ITFP desde a introdução da eletroporação irreversível em Portugal — oferece duas vantagens estruturais sobre a via transrectal que considero inegociáveis. Primeira: permite a utilização de um template de braquiterapia que impõe fisicamente o paralelismo dos eléctrodos, tornando o rigor geométrico parte integrante do procedimento, e não algo que depende apenas da habilidade do operador. Segunda: elimina o risco de contaminação fecal, com taxas de infecção próximas de zero — o que não é despiciendo quando falamos de um procedimento electivo num doente que, na maior parte dos casos, tem anos de vida saudável pela frente.

Na minha prática clínica, o planeamento pré-operatório é feito sobre a RMN multiparamétrica e a fusão de imagem com ecografia 3D. Cada eléctrodo é posicionado em coordenadas previamente calculadas, em função da anatomia específica de cada doente. O intra-operatório começa sempre pela confirmação ecográfica do posicionamento — antes de qualquer impulso eléctrico ser disparado. Este rigor não é excesso de precaução nem perfeccionismo desnecessário. É o que torna os resultados do PRESERVE Trial reproduzíveis fora dos centros que participaram no ensaio — e é o que me permite olhar nos olhos dos meus doentes e explicar-lhes o que vai acontecer, passo a passo.

Para Quem É Indicado o IRE?

Esta é invariavelmente a primeira pergunta que os doentes me colocam após a explicação do mecanismo — e é a pergunta certa. Porque a entusiasmo pela técnica não pode nunca obscurecer a honestidade sobre a sua indicação. A resposta clara é: o IRE é adequado para um subgrupo bem definido de doentes, não para todos os que recebem um diagnóstico de cancro da próstata.

Os critérios que aplicamos no ITFP, alinhados com as orientações da EAU (EAU Guidelines on Prostate Cancer, edição 2025), são:

  • Doença localizada, clinicamente confinada à próstata (cT1c–cT2b)

  • Gleason 3+3, 3+4 ou 4+3 (doença de risco baixo a intermédio; casos de risco intermédio desfavorável seleccionados individualmente, após discussão multidisciplinar)

  • PSA ≤ 20 ng/mL na maioria dos casos

  • Lesão identificável na RMN multiparamétrica (PI-RADS ≥ 3) com confirmação histológica por biópsia de fusão

  • Volume tumoral focal susceptível de ablação com margem de segurança adequada

O IRE não é a escolha certa para doença localmente avançada, envolvimento ganglionar ou doença multifocal de alto volume. Nesses casos, a conversa no consultório orienta-se para outras opções — e essa conversa é igualmente importante. O que posso garantir é que a decisão é sempre personalizada: não existe um protocolo único aplicado a todos, e o doente e a sua família são parte activa dessa decisão.

Se tem dúvidas sobre se o IRE pode ser adequado para a sua situação específica, o passo certo é uma consulta de avaliação onde analisamos em conjunto a RMN, a biópsia e o PSA. Só com essa informação completa é possível ter uma conversa honesta sobre o que faz mais sentido para si.

Perguntas Frequentes

O IRE é doloroso? Que tipo de anestesia é utilizada?

O procedimento é realizado sob anestesia geral, pelo que o doente não sente absolutamente nada durante a ablação. A sincronização dos impulsos eléctricos com o ciclo cardíaco — para evitar arritmias — é monitorizada em tempo real por uma equipa de anestesiologia experiente. Na fase de recuperação, a maioria dos doentes descreve desconforto ligeiro a moderado, perfeitamente controlável com analgésicos orais. A alta hospitalar ocorre habitualmente no dia seguinte ao procedimento — muitos dos meus doentes ficam surpreendidos com a rapidez da recuperação.

Se o IRE falhar, ainda é possível fazer outros tratamentos?

Sim — e este é, na minha opinião, um dos argumentos mais importantes a favor da terapia focal quando a discuto com os doentes e as suas famílias. Ao contrário da prostatectomia radical ou da radioterapia de campo total, o IRE não queima as pontes terapêuticas. Em caso de recidiva confirmada por biópsia de seguimento, as opções incluem repetição do IRE, radioterapia ou cirurgia. Os estudos publicados mostram que a morbilidade do tratamento de resgate após IRE é comparável à do tratamento primário — o que não acontece, por exemplo, após falha de radioterapia. Esta flexibilidade é particularmente importante para doentes mais jovens, que têm décadas de vida pela frente.

Quanto tempo demora a recuperação após IRE à próstata?

A maioria dos doentes retoma actividade ligeira — trabalho de escritório, condução — em 48 a 72 horas após a alta. O catéter vesical é habitualmente retirado ao fim de 3 a 5 dias. A função sexual, quando preservada pelos dados de base, recupera progressivamente ao longo dos 6 a 12 meses seguintes — explico sempre este calendário aos doentes para que não fiquem preocupados com a descida transitória do IIEF-5 aos 6 meses, que o PRESERVE Trial documenta e que é parte esperada do processo de cicatrização. A recuperação da continência é, em muitos casos, imediata ou ocorre nas primeiras semanas — um dado que os doentes, quando confirmam por experiência própria, costumam descrever como uma surpresa positiva.

Conclusão e Referências

Os três princípios que apresentei no II Congresso Português de Urologia Oncológica — destruição por campo eléctrico com preservação da matriz, preservação NVB/uretra por geometria planeada, e paralelismo rigoroso como condição técnica inegociável — não são três factos independentes que se podem aprender separadamente. São um sistema coerente: compreender um implica compreender os outros dois. É essa coerência interna que me convence, clinicamente, da solidez desta abordagem.

Os dados do PRESERVE Trial (George AK et al., Eur Urol 2026) representam o nível de evidência mais elevado disponível para IRE focal à data. Os resultados funcionais — 96% de continência, 84% de preservação eréctil — são encorajadores e biologicamente plausíveis dado o mecanismo de acção que descrevi acima. Os resultados oncológicos a 12 meses são promissores; aguardamos o seguimento alargado com o rigor crítico que qualquer intervenção oncológica merece, e que os nossos doentes merecem de nós.

Agradeço a todos os participantes do workshop pelas perguntas que tornaram a sessão muito mais rica do que qualquer apresentação a solo poderia ser. Os PDF e referências completas do workshop estão disponíveis para download.

Referências

  1. George AK et al. PRESERVE Trial. Eur Urol 2026;89:57–68.

  2. Lebastchi AH et al. JAMA Surg 2021.

  3. van den Bos W. Thesis, Utrecht University, 2016.

  4. Guillaumier S et al. Eur Urol 2018;74:422–429.

  5. Donaldson IA et al. Eur Urol 2015;67:771–777.

  6. EAU Guidelines on Prostate Cancer, 2025 edition.

Quer saber se o IRE é adequado para a sua situação?

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