

Electroporação Irreversível (IRE) — Terapia Focal do Cancro da Próstata
A Electroporação Irreversível (IRE) é a técnica de terapia focal mais precisa
disponível atualmente para o tratamento do cancro da próstata localizado. Ao
contrário das abordagens convencionais, a IRE destrói as células tumorais com
campos eléctricos pulsados de alta intensidade, sem recurso a calor ou frio,
preservando assim os tecidos e estruturas neurovasculares adjacentes. O
Instituto de Terapia Focal da Próstata, no Porto, é o único centro em Portugal
com experiência acumulada nesta tecnologia, sob orientação do Dr. Sanches Magalhães.
O Que É a Electroporação Irreversível (IRE)?
A IRE utiliza impulsos eléctricos de curtíssima duração (microssegundos) e
elevada voltagem para criar nanoporos permanentes na membrana das células
tumorais. Este processo, denominado electroporação irreversível, desencadeia a
morte celular por apoptose — um mecanismo de morte celular programada — sem provocar necrose por temperatura. O resultado é a destruição selectiva das
células cancerosas, preservando a matriz de colagénio, os vasos sanguíneos e
os feixes neurovasculares responsáveis pela função eréctil e continência
urinária.
Ao contrário do HIFU ou da crioterapia, que se baseiam respectivamente em
calor e frio extremos, a IRE não depende de efeitos térmicos. Esta característica é determinante quando o tumor se localiza junto ao colo vesical, à uretra ou aos nervos erectores — zonas onde qualquer dano térmico seria irreversível. A IRE pode assim tratar áreas que seriam inacessíveis de forma segura com outras tecnologias de ablação.
Em dezembro de 2024, a IRE recebeu autorização da FDA norte-americana com base nos resultados do estudo PRESERVE (Pivotal Study of IRE for the Treatment of Prostate Cancer), o primeiro ensaio clínico prospectivo multicêntrico a confirmar a eficácia e segurança da IRE no cancro da próstata localizado. A
Associação Europeia de Urologia (EAU) reconhece a terapia focal, incluindo a
IRE, nas suas diretrizes como opção terapêutica para doentes selecionados com
cancro da próstata de risco baixo a intermédio. Portugal acompanha esta evolução: o Dr. Sanches Magalhães foi mentor de um procedimento IRE no Athens Medical Center, na Grécia, em setembro de 2024, num marco que evidencia o reconhecimento internacional da sua experiência.
A IRE enquadra-se na estratégia de terapia focal, uma filosofia de tratamento
que trata apenas a zona da próstata onde o tumor foi confirmado por
biopsia-fusao-prostata, poupando o restante tecido glandular saudável. Esta
abordagem é especialmente adequada para doentes com cancro localizado,
unilateral ou com envolvimento limitado, que valorizam a preservação da
qualidade de vida.
Selectividade celular
A IRE age exclusivamente ao nível da membrana celular, sem libertar calor nem frio nos tecidos circundantes. Os campos eléctricos pulsados destroem as células tumorais enquanto as
estruturas de suporte permanecem intactas. Esta selectividade reduz
significativamente o risco de danos colaterais — um dos principais limitadores das técnicas convencionais de ablação.
Limites bem definidos
A zona tratada pela IRE é monitorizada em tempo real por ecografia transrectal e confirmada por ressonância magnética pré-operatória. Os elétrodos são posicionados com precisão milimétrica, garantindo que o campo eléctrico cobre integralmente o volume tumoral com margem de segurança. Esta previsibilidade é fundamental para assegurar a eficácia oncológica e minimizar lesões em estruturas adjacentes.
Sem cicatrizes
Por não provocar necrose coagulativa nem fibrose extensa, a IRE não deforma a anatomia da próstata nem dificulta cirurgias ou tratamentos futuros, caso sejam necessários. Esta característica é particularmente relevante para doentes que possam necessitar de prostatectomia de resgate ou de re-tratamento. A ausência de cicatrizes significativas também simplifica a vigilância por ressonância magnética no seguimento pós-tratamento.
Rapidez, sessão única
O procedimento IRE é realizado numa única sessão, com duração total de
aproximadamente duas horas (incluindo anestesia e posicionamento). A maioria dos doentes tem alta hospitalar no próprio dia ou no dia seguinte. Ao
contrário da radioterapia, que exige semanas de tratamento diário, ou da
vigilância activa, que implica ansiedade prolongada, a IRE oferece uma resolução terapêutica definitiva num único momento clínico.
Polivalência
A IRE é uma das poucas técnicas de terapia focal que pode ser aplicada tanto como tratamento primário do cancro da próstata localizado, como tratamento de resgate em casos de recorrência após radioterapia. Nos doentes com recidiva local pós-radioterapia, as opções são frequentemente limitadas pela fibrose e pela toxicidade acumulada. A IRE, por não depender de temperatura, consegue actuar em tecido previamente irradiado com segurança acrescida — uma vantagem terapêutica única. Para mais informação sobre o diagnóstico e estadiamento, visite a página /cancro-prostata.
Resposta Imune
Investigação recente sugere que a morte celular por apoptose induzida pela IRE liberta antigénios tumorais que podem activar uma resposta imunitária sistémica — o chamado efeito abscopal. Embora este mecanismo esteja ainda sob investigação clínica activa, os dados preliminares apontam para um potencial efeito imunoestimulador que pode complementar a eficácia local da ablação.
Como Se Realiza o Procedimento IRE
Planeamento
O tratamento começa semanas antes com uma ressonância magnética
multiparamétrica (mpRMI) da próstata, seguida de biópsia de fusão para
confirmar a localização e extensão exactas do tumor. Com base nestas imagens,
o Dr. Sanches Magalhães planeia digitalmente a posição dos elétrodos e os
parâmetros eléctricos que definem a zona de ablação.
O procedimento
No dia da intervenção, o doente é submetido a anestesia geral. São inseridos
por via perineal (entre o escroto e o ânus) quatro a seis elétrodos de agulha
fina, guiados por ecografia transrectal em tempo real e por fusão com as
imagens de ressonância pré-operatória. Uma vez confirmado o posicionamento
correcto, são emitidos os impulsos eléctricos de alta voltagem que destroem as
células tumorais. A sessão de ablação propriamente dita dura entre 20 e 40
minutos.
Recuperação
Após o procedimento, o doente permanece em observação durante algumas horas. A
grande maioria tem alta no próprio dia ou na manhã seguinte. É colocada uma
sonda urinária durante horas ou poucos dias para proteger a uretra durante a fase de
cicatrização inicial. A retoma das atividades quotidianas ocorre tipicamente
ao fim de uma semana, e a retoma da atividade sexual é esperada entre as 4 e
as 8 semanas. O seguimento inclui RM precoce: nos primeiros 10 dias,PSA aos 3 e 6 meses, e nova ressonância magnética de controlo ao ano.
Resultados Clínicos — O Que Dizem os Estudos
O estudo PRESERVE, ensaio clínico prospectivo multicêntrico que sustentou a
autorização da FDA em dezembro de 2024, demonstrou que a IRE atinge controlo
oncológico sustentado em doentes com cancro da próstata de risco baixo a
intermédio, com uma taxa de ausência de recorrência significativa ao follow-up
de 2 anos. Mais relevante para a qualidade de vida dos doentes, o estudo
documentou uma preservação da função eréctil superior a 80% e uma taxa de
incontinência urinária clinicamente significativa inferior a 2% — resultados
claramente superiores aos da prostatectomia radical ou radioterapia de campo total.
O crescente reconhecimento internacional da IRE é evidenciado pelo facto de o
Dr. Sanches Magalhães ter sido convidado como mentor de um procedimento em
Atenas, em setembro de 2024, contribuindo para a disseminação da técnica na
Europa. A EAU integra a terapia focal nas suas diretrizes de 2024 e 2025 como
opção válida para doentes selecionados, recomendando que os procedimentos
sejam realizados em centros com experiência específica e programa de
seguimento estruturado — critérios que o Instituto de Terapia Focal da
Próstata satisfaz integralmente.
Para além dos resultados oncológicos, os estudos sobre IRE demonstram
consistentemente uma preservação superior da qualidade de vida
comparativamente aos tratamentos convencionais. A manutenção da função sexual
e da continência urinária traduz-se em impacto psicossocial significativamente
menor — um factor cada vez mais valorizado nas decisões terapêuticas
partilhadas entre médico e doente.
Quem Pode Beneficiar da IRE?
A IRE é indicada para doentes com cancro da próstata localizado de risco baixo
a intermédio, confirmado por biópsia de fusão guiada por ressonância
magnética, com tumor unilateral ou com envolvimento limitado a menos de 50% da
glândula. São candidatos ideais homens que pretendam preservar a função
eréctil e a continência urinária, e que prefiram evitar os efeitos secundários
associados à prostatectomia radical ou à radioterapia.
A IRE é também uma opção válida para doentes com recorrência local após
radioterapia externa ou braquiterapia, nos quais a prostatectomia de resgate
apresenta riscos cirúrgicos elevados e a repetição de radioterapia é
frequentemente impossível. Nestes casos, a IRE oferece uma alternativa eficaz
e segura, sem as restrições impostas pela fibrose pós-actínica.
Doentes com doença metastática ou com envolvimento ganglionar confirmado não
são candidatos a terapia focal. Alguns casos de risco muito baixo poderão ser
mais adequadamente geridos por vigilância activa. A decisão terapêutica é
sempre individualizada, com base na discussão multidisciplinar e na
preferência informada do doente. O Dr. Sanches Magalhães dedica a consulta
inicial à análise detalhada de todos os exames e à apresentação das opções
mais adequadas para cada caso.
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Perguntas Frequentes Sobre a IRE
01
Quais os efeitos secundários da IRE?
Os efeitos secundários mais comuns são transitórios: desconforto perineal
ligeiro nos primeiros dias, hematúria (sangue na urina) ligeira na primeira
semana e dificuldade urinária temporária durante o período com sonda. Efeitos
secundários graves, como disfunção eréctil permanente ou incontinência
urinária, são raros — o estudo PRESERVE documenta taxas inferiores às de
qualquer outra modalidade de tratamento activo do cancro da próstata.
03
A IRE pode ser repetida?
Sim. Caso os exames de seguimento revelem recorrência ou progressão após um
primeiro tratamento com IRE, o procedimento pode ser repetido, tanto na mesma
zona como noutro sector da próstata. Esta flexibilidade é uma vantagem
relevante face a tratamentos que esgotam as opções futuras, como a
radioterapia de campo total.
05
Quanto tempo demora a recuperação após IRE?
A maioria dos doentes tem alta no próprio dia ou no dia seguinte ao
procedimento. A sonda urinária é removida ao fim de 5 a 7 dias. A retoma das atividades quotidianas normais ocorre tipicamente ao fim de uma semana. A retoma da atividade sexual é habitualmente possível entre as 4 e as 8 semanas após o tratamento, dependendo da localização e extensão da ablação.
02
Posso fazer IRE se já fiz radioterapia?
Sim. A IRE é uma das poucas técnicas de ablação que pode ser realizada com
segurança em tecido previamente irradiado. Em casos de recorrência local após
radioterapia, a IRE constitui uma das opções de resgate mais bem documentadas,
evitando os riscos da cirurgia em campo fibrótico.
04
A IRE é aprovada oficialmente?
Sim. A FDA norte-americana autorizou a IRE para o tratamento do cancro da
próstata localizado em dezembro de 2024, com base no ensaio clínico PRESERVE.
A Associação Europeia de Urologia (EAU) reconhece a terapia focal, incluindo a
IRE, nas suas diretrizes clínicas. Em Portugal, o procedimento é realizado no
âmbito de prática clínica especializada, em centro com experiência específica
nesta tecnologia.
06
Qual a diferença entre IRE e HIFU?
Tanto a IRE como o HIFU são técnicas de terapia focal minimamente invasivas, mas funcionam por mecanismos completamente distintos. O HIFU utiliza ultrassons focados para destruir células por calor (temperatura superior a 80°C), enquanto a IRE utiliza campos eléctricos pulsados sem efeito térmico. A principal consequência prática é que a IRE pode tratar com segurança zonas junto à uretra, ao colo vesical e aos feixes neurovasculares, onde o HIFU não
actua sem risco de dano permanente. A IRE é também a única opção de terapia focal validada para tratamento de resgate após radioterapia. Consulte a nossa página de faq para mais comparações entre técnicas.
REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
1. Valerio M, et al. "Irreversible electroporation of the prostate gland: a
systematic review of the literature." Journal of Clinical Medicine, 2022.
PMID: 35566004
2. Stabile A, et al. "Non-thermal ablative technologies for localised prostate
cancer: a systematic review and meta-analysis." European Urology Focus, 2021.
DOI: 10.1016/j.euf.2020.09.001
3. EAU Guidelines on Prostate Cancer. European Association of Urology, 2025.
uroweb.org/guidelines/prostate-cancer
4. PRESERVE Trial. "Pivotal Study of Irreversible Electroporation for the
Treatment of Prostate Cancer — FDA submission data." AngioDynamics / FDA,
dezembro 2024.
5. Blazevski A, et al. "Oncological and functional outcomes of irreversible
electroporation (IRE) as focal therapy for localized prostate cancer." BJU
International, 2020. DOI: 10.1111/bju.14985