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Rezum vs medicação para a próstata aumentada: o que diz o primeiro estudo randomizado

Por Dr. José Sanches Magalhães — Urologista, Instituto de Terapia Focal da Próstata, Porto

Durante anos, quando um doente com próstata aumentada me perguntava "doutor, não posso fazer o Rezum em vez de andar a tomar comprimidos para o resto da vida?", a resposta honesta era: "provavelmente sim, mas ninguém comparou os dois directamente."

Isso mudou em Agosto de 2026. O ensaio VAPEUR-RCT, publicado na European Urology Focus, é o primeiro estudo randomizado que põe frente a frente o Rezum (terapia térmica com vapor de água) e a medicação combinada — alfa-bloqueante mais inibidor da 5-alfa-redutase — em homens com sintomas de hiperplasia benigna da próstata (HBP).

Neste artigo explico o que o estudo mostrou, o que não mostrou, e como uso estes dados na consulta. Sem entusiasmos fáceis: há ganhos claros, mas também custos que é preciso conhecer.

Rezum vs medicação — porque é que esta comparação demorou tanto?

A medicação combinada é, há mais de 20 anos, o tratamento de referência para a HBP sintomática com próstatas médias e grandes. Os alfa-bloqueantes (tamsulosina, silodosina) relaxam o músculo da próstata e do colo vesical; os inibidores da 5-alfa-redutase (dutasterida, finasterida) reduzem lentamente o volume da glândula. Juntos funcionam melhor do que cada um isolado — os estudos MTOPS e CombAT provaram-no.

O problema é o preço biológico: a combinação reduz a libido, causa disfunção eréctil de novo numa fracção dos homens, altera a ejaculação e obriga a tomas diárias, indefinidamente. Muitos doentes toleram; outros desistem em silêncio.

Já explicei noutro artigo o que é o Rezum e como funciona: injecções de vapor de água que destroem tecido prostático em excesso, num procedimento de minutos, sem cortes e com preservação da função sexual. Até agora, a evidência do Rezum vinha de estudos contra placebo (procedimento simulado) e de séries clínicas. Contra a medicação — a alternativa real na cabeça do doente — só havia comparações indirectas.

O VAPEUR-RCT fecha essa lacuna.

Dr. Sanches Magalhães, urologista no Porto — tratamento da HBP: Rezum vs medicação
Dr. José Sanches Magalhães, urologista no Instituto de Terapia Focal da Próstata, Porto

O estudo VAPEUR-RCT em números

  • 151 homens randomizados 1:1 — 75 para Rezum, 76 para medicação combinada

  • 21 centros (20 em França, 1 na Austrália), recrutamento 2021–2024

  • Idade média 64 anos; próstata média de ~60 ml (entre 27 e 150 ml)

  • Todos sexualmente activos e com sintomas moderados a graves (IPSS ≥ 13; média ~21) apesar de já tomarem um alfa-bloqueante

  • Braço medicação: alfa-bloqueante + inibidor da 5-alfa-redutase (na maioria, dutasterida)

  • Seguimento: 12 meses

Um detalhe importante: estes não eram homens acabados de diagnosticar. Eram doentes em que o alfa-bloqueante isolado já não chegava — precisamente o grupo em que, na prática clínica, se decide entre "subir" para a combinação ou passar a um procedimento.

Resultados — o que o Rezum ganhou

Utilizo o questionário IPSS todas as semanas na consulta: uma pontuação de 0 a 35 que mede a gravidade dos sintomas urinários. Foi o desfecho principal do estudo. Ao fim de 1 ano, Rezum vs medicação combinada:

  • Melhoria dos sintomas (IPSS): −10,8 pontos (de 20,7 para 9,5) vs −6,2 pontos (de 20,9 para 14,4)

  • Doentes com sintomas "ligeiros" (IPSS 0–7): 52% vs 14%

  • Qualidade de vida (IPSS-QoL): −2,7 vs −1,8

  • Fluxo urinário máximo aos 3 meses: +5,8 ml/s vs +1,3 ml/s

  • Perda de libido: 0% vs 11%

  • Disfunção eréctil de novo: 2 doentes vs 9 doentes

  • Necessitaram de cirurgia no 1.º ano: 1,3% (1 em 75) vs 9,2% (7 em 76)

  • Agravamento dos sintomas (IPSS +4): 2,7% vs 13%

Em linguagem corrente: o Rezum melhorou os sintomas cerca do dobro da medicação (diferença média de 4,6 pontos IPSS, estatisticamente robusta), e mais de metade dos doentes tratados com Rezum ficaram com sintomas ligeiros — contra um em cada sete com medicação.

Na função sexual, a pontuação global do questionário MSHQ manteve-se com o Rezum (+1,1) e desceu com a medicação (−5,2). Convém ser rigoroso: a diferença entre grupos na pontuação global não atingiu significância estatística em todas as análises. Mas os efeitos secundários sexuais concretos — perda de libido, disfunção eréctil nova — foram claramente mais frequentes no grupo da medicação. É o padrão que vejo na consulta.

E ao fim de 12 meses, 88% dos homens tratados com Rezum não tomavam qualquer medicação para a próstata.

Resultados — o que o Rezum custou

Aqui está a parte que os resumos de imprensa tendem a saltar e que eu não posso omitir.

O Rezum teve mais efeitos adversos no primeiro ano: 43% dos doentes vs 29% com medicação. Os mais frequentes foram retenção urinária transitória, sintomas urinários irritativos, sangue na urina e infecções urinárias ou prostatite (19% — quase todas resolvidas com antibiótico). Houve eventos adversos sérios em 12% dos doentes Rezum (vs 1,3%), todos relacionados com o procedimento, nenhum fatal.

Duas nuances tornam este número mais compreensível:

  • Quase tudo aconteceu nos primeiros 90 dias — 44 dos 50 eventos. O Rezum cria uma inflamação controlada dentro da próstata; as semanas seguintes são desconfortáveis, e há que contar com algália durante cerca de 6 dias.

  • Ao fim de um ano, 92% dos eventos do Rezum estavam resolvidos. No grupo da medicação só 55% — porque os efeitos dos fármacos (libido, erecção, cansaço) persistem enquanto se tomam.

Os próprios autores resumem bem o dilema: risco procedimental transitório, potencialmente sério, com maior melhoria dos sintomas — versus efeitos medicamentosos mais ligeiros mas persistentes. Não há resposta certa universal. Há a resposta certa para cada homem.

Outro dado a reter: 12% dos doentes Rezum voltaram a tomar medicação (sobretudo alfa-bloqueante) durante o primeiro ano. O Rezum reduz muito a dependência de fármacos; não a elimina em todos.

Limitações do estudo — o que ainda não sabemos

Para um site de saúde, dizer só metade seria enganar. Estas são as limitações que peso quando cito o VAPEUR:

  • Um ano de seguimento. Sabemos que o Rezum mantém resultados a 5 anos em estudos contra placebo; a comparação directa com medicação só existe a 12 meses.

  • Estudo aberto. Doentes e médicos sabiam quem fez o quê — inevitável com um procedimento, mas pode influenciar questionários subjectivos.

  • Adesão à medicação auto-reportada. Um quarto dos doentes do braço medicação reportou tomar menos de 85% dos comprimidos. Na vida real é assim; num ensaio, favorece ligeiramente o Rezum.

  • Financiado pela Boston Scientific, fabricante do Rezum. Os dados foram analisados com plano pré-especificado e publicados numa revista da Associação Europeia de Urologia, mas o financiamento existe e deve ser conhecido.

  • População seleccionada: homens sexualmente activos, refractários a alfa-bloqueante. Os resultados não se generalizam a todos os homens com próstata aumentada — em particular aos que respondem bem a um comprimido simples e não têm queixas sexuais.

Como uso estes dados na consulta

O VAPEUR não me faz propor Rezum a toda a gente. Faz-me propor uma conversa diferente a um grupo específico de doentes:

  • Homem com HBP sintomática em que o alfa-bloqueante já não chega

  • Sexualmente activo e que valoriza manter libido, erecção e ejaculação

  • Próstata entre ~30 e 80–100 ml, com ou sem lobo mediano (63% dos doentes do estudo tinham lobo mediano tratado)

  • Que prefere um episódio de desconforto de semanas a um compromisso diário para o resto da vida

  • Ou, simplesmente, que já experimentou a combinação e não a tolerou

Para este perfil, a pergunta "Rezum ou dutasterida + tamsulosina?" tem agora evidência de nível 1 para ser respondida com dados e não com opinião.

O que digo também, sempre: o tamanho da próstata importa, a avaliação prévia (fluxometria, ecografia, PSA) é obrigatória, e o Rezum não é o tratamento adequado para próstatas muito volumosas nem para homens que já têm retenção urinária crónica. Nesses casos há outras opções — e discutimo-las.

No Instituto realizamos o Rezum em regime ambulatório, com alta no mesmo dia. O procedimento é o mesmo que foi usado nos 21 centros do VAPEUR.

Perguntas frequentes sobre Rezum vs medicação

O Rezum substitui completamente os comprimidos para a próstata?

Na maioria, sim: no VAPEUR, 88% dos homens estavam sem medicação ao fim de um ano. Cerca de 12% precisaram de retomar um alfa-bloqueante. É uma redução muito grande da dependência de fármacos, não uma garantia absoluta.

A medicação combinada (tamsulosina + dutasterida) causa mesmo problemas sexuais?

Nem em todos, mas numa fracção relevante. No estudo, 11% perderam libido e 9 em 76 desenvolveram disfunção eréctil nova no primeiro ano — contra 0% e 2 em 75 com Rezum. Estes efeitos tendem a persistir enquanto se toma a medicação.

O Rezum é perigoso? O estudo fala em 12% de eventos sérios.

Fala, e é verdade. Eram sobretudo retenção urinária e prostatite nos primeiros 90 dias, tratadas com algália e antibiótico; nenhum foi fatal e quase todos resolveram. É um risco real, transitório, que deve ser pesado contra os efeitos persistentes da medicação — em conversa com o urologista, não sozinho.

Se tenho próstata aumentada e nunca tomei nada, devo fazer Rezum já?

Não necessariamente. O estudo incluiu homens que já não respondiam ao alfa-bloqueante. Para quem nunca foi medicado, o primeiro passo continua a ser avaliação completa e, muitas vezes, um fármaco simples. O Rezum entra quando a medicação falha, não é tolerada, ou quando o doente prefere evitá-la de forma informada.

Os resultados do Rezum duram?

Contra a medicação, só sabemos a 1 ano — é a limitação principal do VAPEUR. Contra placebo, os estudos de McVary mostram melhoria mantida aos 5 anos, com cerca de 4% de retratamento cirúrgico. Vigiamos os nossos doentes anualmente com IPSS e fluxometria.

Se toma medicação para a próstata e se reconhece neste artigo — sintomas que não cedem, efeitos secundários que não quer aceitar — vale a pena uma avaliação. Na consulta medimos os seus sintomas, o volume da próstata e o fluxo urinário, e discutimos com dados qual o caminho que faz sentido para si.

Marcar consulta · Instituto de Terapia Focal da Próstata, Av. da Boavista 117, Porto. Regime privado; alguns subsistemas e seguros comparticipam em reembolso.

Artigo redigido pelo Dr. José Sanches Magalhães, urologista, Assistente Graduado de Urologia no IPO Porto e fundador do Instituto de Terapia Focal da Próstata. Conteúdo informativo; não substitui consulta médica.

Referências

  • Vincendeau S, Xylinas E, Fourmarier M, et al. Water Vapor Thermal Therapy with Rezūm Versus Combination Pharmacotherapy for Male LUTS due to Benign Prostatic Obstruction: 1-Yr Results From a Prospective, Multicenter, Pragmatic RCT (VAPEUR-RCT). Eur Urol Focus. 2026. DOI: 10.1016/j.euf.2026.08.001 · PubMed PMID 42608232 (open access)

  • McVary KT, Gittelman MC, Goldberg KA, et al. Final 5-Year Outcomes of the Multicenter Randomized Sham-Controlled Trial of a Water Vapor Thermal Therapy for Treatment of Moderate to Severe LUTS Secondary to BPH. J Urol. 2021;206(3):715–724. PubMed PMID 33872051

  • McConnell JD, Roehrborn CG, Bautista OM, et al. The long-term effect of doxazosin, finasteride, and combination therapy on the clinical progression of BPH (MTOPS). N Engl J Med. 2003;349(25):2387–2398. PubMed PMID 14681504

  • Roehrborn CG, Siami P, Barkin J, et al. The effects of combination therapy with dutasteride and tamsulosin on clinical outcomes in men with symptomatic BPH: 4-year results from the CombAT study. Eur Urol. 2010;57(1):123–131. PubMed PMID 19825505

  • EAU Guidelines on Management of Non-neurogenic Male LUTS. European Association of Urology, 2026. uroweb.org

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