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Terapia Focal da Próstata: O Que É, Como Funciona e Quem Pode Beneficiar

Terapia Focal da Próstata: O Que É, Como Funciona e Quem Pode Beneficiar

Quando um homem recebe o diagnóstico de cancro da próstata localizado, a primeira reacção é, quase sempre, a mesma: «O que vai acontecer à minha vida?» A preocupação não é apenas com o cancro em si — é com o que o tratamento pode roubar: a continência urinária, a vida sexual, a autonomia do dia-a-dia. Sei, pela experiência de anos de consulta, que muitos homens chegam acompanhados pela família, com esse peso visível nos olhos. Durante décadas, as únicas opções disponíveis eram a remoção cirúrgica de toda a próstata ou a irradiação da glândula inteira, ambas com um custo funcional considerável. Hoje, existe uma terceira via — e é sobre ela que quero falar-lhe.

A terapia focal da próstata é uma abordagem que trata exclusivamente a zona tumoral, poupando o tecido saudável adjacente e, com ele, as estruturas responsáveis pela continência e pela função eréctil. Na minha prática clínica, ao longo de mais de 20 anos de urologia no IPO Porto, tenho acompanhado de perto a evolução desta filosofia terapêutica — e posso afirmar com rigor que representa, para um grupo bem seleccionado de doentes, uma mudança genuinamente transformadora na forma como vivemos o pós-diagnóstico.

Neste artigo explico o que é a terapia focal, quais as técnicas disponíveis, a quem se destina e o que pode esperar em termos de resultados oncológicos e qualidade de vida. Se foi recentemente diagnosticado com cancro da próstata localizado, ou se está a ponderar as suas opções terapêuticas — talvez com a ajuda de alguém próximo —, este texto foi escrito para si.


O Que É a Terapia Focal da Próstata e Como Difere dos Tratamentos Tradicionais

A próstata é uma glândula com o tamanho aproximado de uma noz, localizada abaixo da bexiga. O cancro da próstata localizado — o mais comum ao diagnóstico — fica confinado à glândula, muitas vezes numa zona específica e bem delimitada. O paradigma clássico de tratamento partia do princípio de que era necessário eliminar ou irradiar toda a próstata, mesmo que o tumor ocupasse apenas uma fracção do volume glandular. Compreendo a lógica que durante anos sustentou essa abordagem — mas a medicina evoluiu, e os nossos instrumentos de diagnóstico também.

A terapia focal inverte esta lógica. Em vez de tratar o órgão inteiro, identificamos com precisão a localização exacta do tumor — através de ressonância magnética multiparamétrica e biópsia de fusão RMN + ecografia — e aplicamos a energia ablativa apenas nessa zona. O restante tecido prostático, bem como os feixes neurovasculares que correm ao longo da glândula e são responsáveis pela erecção, são preservados na sua grande maioria.

Importa sublinhar: esta abordagem não é uma solução de compromisso entre tratar e não tratar. É uma estratégia oncologicamente fundamentada, respaldada por evidência crescente na literatura urológica internacional, incluindo as directrizes da European Association of Urology (EAU), que reconhecem as terapias focais como opção válida em doentes criteriosamente seleccionados com cancro localizado de risco intermédio favorável. O princípio orientador é claro: tratar o menos possível, mas o suficiente. Não menos do que o necessário. Exactamente o que o tumor exige.

Técnicas de Terapia Focal Disponíveis: Da IRE ao HIFU

Existem várias modalidades de terapia focal, cada uma com mecanismos de acção distintos. A selecção da técnica mais adequada depende da localização do tumor, do volume glandular, do perfil de risco oncológico e das características individuais de cada doente. Não existe uma solução única — existe a solução certa para cada pessoa. As principais técnicas disponíveis são:

Electroporação Irreversível — IRE (NanoKnife)

A Electroporação Irreversível (IRE) — também conhecida pelo nome comercial NanoKnife — é a técnica em que me especializei e aquela que considero, para determinados perfis de doente, a mais versátil e precisa disponível actualmente. O seu mecanismo de acção é diferente de tudo o resto: a IRE actua através de pulsos eléctricos de alta intensidade que criam microporos permanentes nas membranas celulares das células tumorais, induzindo a morte celular por apoptose — sem calor, sem radiação e sem destruição colateral do tecido conjuntivo envolvente.

Esta característica é, na minha opinião, determinante. Ao contrário das técnicas térmicas, a IRE preserva os vasos sanguíneos, os nervos e a arquitectura tecidual das zonas não tratadas. Na prática, isso significa que os feixes neurovasculares responsáveis pela erecção podem ser mantidos intactos, mesmo quando o tumor se localiza próximo deles — uma situação em que outras técnicas seriam mais limitadas, e que frequentemente é a razão pela qual os doentes chegam à minha consulta preocupados.

O procedimento é realizado por agulhas introduzidas pela região perineal, sem qualquer incisão cirúrgica. O internamento é inferior a 24 horas — habitualmente o doente tem alta no dia seguinte — e a recuperação da rotina diária é rápida. Fui pioneiro na introdução desta técnica em Portugal e, em setembro de 2024, fui convidado como mentor em IRE no Athens Medical Center, na Grécia, o que reflecte o reconhecimento internacional do trabalho desenvolvido no ITFP. Pode saber mais sobre esta técnica na página dedicada à IRE / NanoKnife.

HIFU — Ultrassons Focados de Alta Intensidade

O HIFU (High-Intensity Focused Ultrasound) utiliza feixes de ultrassom concentrados para gerar calor intenso e localizado na zona tumoral, destruindo as células cancerígenas por ablação térmica. É administrado por via transrectal, sem necessidade de incisões. Os estudos publicados em revistas como o European Urology mostram taxas de preservação funcional satisfatórias quando utilizado em hemiablação ou ablação segmentar em doentes de risco baixo a intermédio — uma opção que, para o perfil certo, pode ser muito eficaz.

Crioterapia Focal

A crioterapia focal destrói o tecido tumoral por congelação, através de agulhas que atingem temperaturas extremamente baixas. Embora seja uma técnica com boa fundamentação oncológica, a proximidade de estruturas neurovasculares pode ser um factor limitante em alguns casos — o mecanismo de destruição é térmico (por frio) e naturalmente menos selectivo do que a IRE quando estamos a falar de preservar estruturas delicadas.

Ablação por Laser Intersticial e Terapia Fotodinâmica

Outras modalidades em estudo incluem a ablação por laser intersticial e a terapia fotodinâmica vascular com padeliporfina. Estas técnicas apresentam resultados promissores em centros de investigação seleccionados, mas ainda com menor volume de dados de longo prazo comparativamente às opções acima referidas. Acompanho esta investigação com interesse — a medicina focal está em permanente evolução.

Quem É Candidato à Terapia Focal? Critérios de Selecção

Esta é, provavelmente, a questão mais importante de todo este artigo — e quero ser completamente honesto sobre ela. A terapia focal não é adequada para todos os doentes com cancro da próstata, e a clareza sobre esta limitação é parte essencial de uma boa prática médica. Ao longo dos anos, aprendi que ajudar um doente a compreender porque não é candidato a uma técnica pode ser tão valioso quanto explicar-lhe porque o é. A selecção criteriosa do candidato é, provavelmente, o factor mais determinante para o sucesso oncológico a longo prazo.

Em termos gerais, os critérios que avalio em consulta para considerar um doente elegível incluem:

  • Cancro da próstata localizado, sem evidência de extensão extracapsular ou metastização ganglionar ou à distância

  • Risco baixo a intermédio favorável, de acordo com a classificação da EAU (tipicamente Gleason 6 ou 3+4=7, PSA inferior a 20 ng/mL)

  • Tumor unifocal ou dominante unilateral, bem identificado por ressonância magnética multiparamétrica (pirads ≥ 3) e confirmado por biópsia de fusão dirigida

  • Volume prostático e anatomia compatíveis com o acesso técnico da modalidade escolhida

  • Expectativa de vida adequada e motivação para seguimento rigoroso pós-tratamento

O diagnóstico de precisão é a base de tudo o resto. A biópsia de fusão RMN + ecografia que realizamos no ITFP combina as imagens da ressonância magnética com a ecografia em tempo real, permitindo colher amostras exactamente das zonas suspeitas. Ao contrário das biópsias transrectais clássicas, este procedimento é realizado por via transperineal, com uma taxa de infecção próxima de zero — uma diferença clinicamente relevante que não deve ser subestimada.

É igualmente importante que fique claro: nos doentes em que a terapia focal não é a opção mais adequada — seja por extensão do tumor, seja por risco oncológico elevado — orientarei sempre para o tratamento mais apropriado, seja ele cirúrgico ou radioterápico. O meu compromisso é com o melhor resultado oncológico para cada pessoa em particular, não com a aplicação de uma técnica favorita.


Resultados Esperados: Eficácia Oncológica e Preservação Funcional

Uma das perguntas que me colocam com maior frequência em consulta é: «Mas será tão eficaz como a cirurgia?» É uma pergunta completamente legítima — e merece uma resposta honesta, não uma promessa fácil.

Os dados disponíveis sobre terapia focal — em particular sobre IRE e HIFU focal — mostram, em muitos casos, taxas de controlo oncológico local muito satisfatórias em doentes adequadamente seleccionados, com seguimento a 5 anos. Um estudo publicado no European Urology (van den Bos et al., 2021) sobre IRE focal demonstrou ausência de recidiva no campo de tratamento em cerca de 80% dos doentes a 3 anos. No entanto, é fundamental ser claro: os dados de longo prazo (10-15 anos) ainda estão a ser gerados, e a terapia focal não substitui os tratamentos radicais em todos os contextos clínicos. Ser honesto sobre esta realidade é, do meu ponto de vista, o mínimo que lhe devo.

Em contrapartida, o perfil de preservação funcional é consistentemente favorável na literatura. Em muitos casos, os estudos mostram que:

  • A função eréctil é preservada na grande maioria dos doentes submetidos a IRE focal, particularmente quando os feixes neurovasculares não estão na zona de ablação

  • A continência urinária raramente é afectada, dado que o esfíncter e o colo vesical não são manipulados durante o procedimento

  • O retorno às actividades quotidianas ocorre tipicamente em poucos dias, sem o período de recuperação prolongado associado à prostatectomia radical — algo que, para quem tem uma vida activa ou responsabilidades profissionais, faz toda a diferença

  • Em caso de recidiva, as opções de tratamento subsequente — incluindo a repetição de terapia focal, cirurgia ou radioterapia — permanecem acessíveis, algo que não acontece sempre após radioterapia prévia

O seguimento após terapia focal inclui doseamento periódico do PSA e, conforme indicado, ressonância magnética de controlo e eventual biópsia de confirmação. Este seguimento rigoroso não é um fardo — é a garantia de que estamos sempre atentos, juntos.

Perguntas Frequentes sobre Terapia Focal da Próstata

A terapia focal é uma alternativa à cirurgia ou à radioterapia?

Para doentes com cancro da próstata localizado de risco baixo a intermédio favorável e tumor bem delimitado, a terapia focal pode ser uma alternativa válida à prostatectomia radical ou à radioterapia de campo total. No entanto, a elegibilidade tem de ser avaliada individualmente — não existe uma resposta universal. É uma opção para quem preenche os critérios adequados, e só uma avaliação clínica completa o pode determinar.

Vou ficar internado após o procedimento?

Na grande maioria dos casos, o internamento é inferior a 24 horas. Os procedimentos de IRE e HIFU focal são realizados sob anestesia geral ou sedação profunda, mas a recuperação é suficientemente rápida para permitir alta no dia seguinte. Muitos dos meus doentes regressam às actividades normais em 2 a 4 dias — o que, para quem aguardava o diagnóstico com receio de uma longa recuperação, costuma ser uma surpresa agradável.

A terapia focal afecta a função sexual?

Em muitos casos, não. A preservação da função eréctil é um dos principais objectivos da terapia focal — e em particular da IRE, precisamente porque o seu mecanismo de acção não é térmico e respeita a arquitectura dos feixes neurovasculares. Os resultados dependem da localização do tumor e da função eréctil prévia ao tratamento, aspectos que discuto em detalhe em consulta, com a atenção que cada situação merece.

E se o cancro voltar após a terapia focal?

Uma das vantagens práticas da terapia focal é que, em caso de recidiva localizada, as opções de tratamento subsequente permanecem abertas. É possível repetir a terapia focal, realizar uma prostatectomia radical ou recorrer à radioterapia — algo que nem sempre é viável após um tratamento radical prévio. O seguimento rigoroso por PSA e imagiologia é essencial exactamente para isso: detectar precocemente qualquer sinal de recidiva e agir a tempo.

Como é feito o diagnóstico antes da terapia focal?

O diagnóstico de precisão é a base de tudo. Utilizamos ressonância magnética multiparamétrica para identificar e caracterizar as lesões suspeitas, seguida de biópsia de fusão RMN + ecografia por via transperineal. Esta combinação permite confirmar a localização exacta, o volume e o grau do tumor antes de qualquer decisão terapêutica — porque só se pode tratar bem aquilo que se conhece bem. Pode saber mais sobre este processo na página da biópsia de fusão.

Tenho 68 anos e o meu PSA subiu recentemente. Devo considerar a terapia focal?

A idade e a subida do PSA são indicadores que justificam investigação — e é muito bem que esteja atento a esses sinais. Mas por si sós não determinam a indicação para terapia focal. É necessário realizar uma avaliação completa — história clínica, PSA, ressonância magnética e, se indicado, biópsia — para perceber se existe cancro, qual o seu grau e localização, e qual a melhor abordagem terapêutica para a sua situação específica. Convido-o a marcar uma consulta para que possamos avaliar tudo isto de forma personalizada e sem pressas.

Marque a Sua Consulta

Se foi recentemente diagnosticado com cancro da próstata localizado, ou se quer simplesmente perceber se a terapia focal é uma opção no seu caso, estou disponível para o receber em consulta no Oporto Medical Centre, no Porto. Venha acompanhado de quem quiser — estas decisões raramente se tomam sozinhos, e isso é completamente natural.

Cada situação clínica é única. Merece uma avaliação personalizada, rigorosa e, acima de tudo, honesta — sem pressão e sem respostas feitas. Pode conhecer melhor o meu percurso e a filosofia do ITFP na página do Dr. Sanches Magalhães, e consultar respostas a outras dúvidas frequentes na nossa secção de FAQ.

Dr. José Sanches Magalhães — Urologista, Assistente Hospitalar Graduado e Consultor de Urologia no IPO Porto, Fellow do European Board of Urology (EBU). Fundador do Instituto de Terapia Focal da Próstata (ITFP). Pioneiro na introdução da Electroporação Irreversível (IRE) em Portugal.

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