IRE Electroporação Irreversível Próstata: O Tratamento Focal Sem Cirurgia
- Dr. Sanches Magalhães
- há 3 dias
- 9 min de leitura
IRE Electroporação Irreversível Próstata: O Tratamento Focal Sem Cirurgia
Receber um diagnóstico de cancro da próstata levanta, quase inevitavelmente, um conjunto de perguntas que pesam muito — e que muitas vezes chegam à consulta acompanhadas pela preocupação silenciosa de quem está ao lado: Vou precisar de cirurgia? Vou ficar incontinente? A minha vida sexual vai mudar para sempre? Durante décadas, estas preocupações foram, em muitos casos, plenamente justificadas — os tratamentos radicais tradicionais tratavam toda a próstata para eliminar o tumor, mas faziam-no com um custo funcional que afectava profundamente a qualidade de vida. Hoje, essa equação mudou — e de forma significativa.
Neste artigo explico em detalhe o que é a IRE (Electroporação Irreversível) — comercialmente conhecida como NanoKnife — como funciona o procedimento, quais as suas vantagens face à cirurgia convencional e quem poderá ser candidato a esta abordagem. Sou o Dr. José Sanches Magalhães, urologista no IPO Porto com mais de 20 anos de experiência clínica, e fui dos primeiros médico em Portugal a utilizar esta técnica no tratamento do cancro da próstata.
Se procura uma alternativa ao tratamento radical que preserve a sua qualidade de vida, convido-o a ler até ao fim. A informação que encontrará aqui pode ajudá-lo a colocar perguntas mais fundamentadas na sua próxima consulta — e a chegar a uma decisão terapêutica verdadeiramente consciente, que seja sua.
O Que É a IRE (Electroporação Irreversível) e Como Funciona?
Compreendo que o nome possa parecer técnico e até intimidante à primeira leitura. Permita-me explicar de forma clara. A Electroporação Irreversível (IRE) é uma técnica de ablação tumoral que utiliza pulsos eléctricos de altíssima voltagem e curtíssima duração para destruir selectivamente as células cancerosas. Ao contrário de outras modalidades de ablação — como a crioterapia (que usa frio extremo) ou o HIFU (que usa calor por ultrassom) — a IRE é uma técnica atérmica: não recorre a temperaturas extremas para eliminar as células tumorais, o que, como veremos, faz uma diferença enorme na preservação das estruturas vizinhas.
O mecanismo de acção baseia-se na criação de nanoporos permanentes nas membranas celulares das células tumorais. Quando a membrana celular é submetida a estes pulsos eléctricos de alta intensidade, perde a sua integridade estrutural de forma irreversível, desencadeando um processo de morte celular programada — a apoptose. O resultado final é a destruição do tumor com uma precisão verdadeiramente milimétrica.
O que torna a IRE particularmente relevante no contexto da próstata — e é aqui que reside o seu grande valor clínico — é o facto de este mecanismo atérmico respeitar as estruturas anatómicas adjacentes: os feixes neurovasculares responsáveis pela erecção, o esfíncter urinário responsável pela continência e o recto permanecem intactos. O campo eléctrico destrói preferencialmente as células com maior actividade metabólica — as células tumorais — sem causar necrose coagulativa difusa nos tecidos vizinhos saudáveis.
Na prática clínica, o procedimento é realizado com o doente sob anestesia geral. São inseridas agulhas finas directamente na próstata, guiadas por ecografia transrectal em tempo real, sem qualquer incisão cirúrgica. As agulhas são posicionadas em torno da zona tumoral e, entre cada par de eléctrodos, são emitidos os pulsos eléctricos que destroem o tecido alvo. O procedimento dura tipicamente entre 60 e 90 minutos, e o internamento raramente ultrapassa as 24 horas. Pode saber mais sobre esta técnica na nossa página dedicada à IRE.
IRE vs. Cirurgia Convencional: Qual a Diferença Real?
Para compreender verdadeiramente o que a IRE representa, é útil — e honesto — perceber o que ela substitui ou, em muitos casos, evita.
A prostatectomia radical (remoção cirúrgica total da próstata) e a radioterapia são os tratamentos padrão para o cancro da próstata localizado há várias décadas. Ambos são eficazes do ponto de vista oncológico, e não os desacredito. Mas têm em comum um pressuposto que a IRE questiona de forma fundamentada: a necessidade de tratar toda a próstata para controlar um tumor que, na maioria dos casos de diagnóstico precoce, está confinado a uma zona específica da glândula. É um pouco como demolir uma casa inteira por causa de um problema numa única divisão.
Esta abordagem radical tem consequências funcionais bem documentadas na literatura — e que os meus doentes me descrevem, com frequência, como o aspecto que mais temem:
Disfunção eréctil: presente em 40% a 80% dos doentes após prostatectomia, mesmo com técnicas de poupança nervosa;
Incontinência urinária: afecta entre 5% e 20% dos doentes a longo prazo após cirurgia;
Alterações intestinais: relativamente frequentes após radioterapia pélvica;
Recuperação prolongada: semanas a meses até retorno à actividade normal.
A IRE, enquanto terapia focal, aborda o problema de forma diferente: trata apenas a zona da próstata onde o tumor foi identificado, preservando o tecido saudável e, com ele, as estruturas funcionais adjacentes. Os dados disponíveis na literatura científica são encorajadores:
Preservação da continência urinária em mais de 95% dos doentes;
Manutenção da função eréctil em mais de 80% dos casos, de acordo com estudos prospectivos publicados;
Taxas de controlo oncológico local comparáveis às terapias radicais em doentes de baixo a intermédio risco (ISUP 1-2, PSA ≤15 ng/mL).
É importante ser rigoroso, e é minha obrigação sê-lo: a IRE encontra-se actualmente em fase de avaliação clínica intermédia (classificação IDEAL 2B), o que significa que, embora os resultados publicados sejam promissores, são ainda necessários estudos randomizados com seguimento a longo prazo para consolidar definitivamente o seu papel no algoritmo terapêutico do cancro da próstata. Na minha prática clínica, apresento sempre esta realidade aos meus doentes com total transparência — a IRE não é para todos, mas para os candidatos certos, em muitos casos os benefícios são substanciais e mensuráveis no dia-a-dia.
Pode conhecer melhor o diagnóstico e as opções terapêuticas disponíveis na nossa página sobre cancro da próstata.
Quem É Candidato à IRE para o Cancro da Próstata?
Esta é, invariavelmente, a primeira pergunta que me colocam — e bem. A selecção criteriosa dos candidatos é um dos pilares fundamentais do sucesso da IRE. Na minha prática clínica, a avaliação de cada doente começa sempre por uma caracterização rigorosa do tumor — localização precisa, grau histológico e extensão — antes de qualquer decisão terapêutica. Não existe uma resposta universal, e é exactamente por isso que cada caso merece ser analisado individualmente.
Em termos gerais, os melhores candidatos à IRE são doentes com:
Cancro da próstata localizado, confinado à glândula (estádio clínico ≤ cT2b);
Grau histológico de baixo a intermédio risco: ISUP grupo 1 ou 2 (correspondente a Gleason 6 ou Gleason 3+4=7);
PSA ≤ 15 ng/mL no momento da avaliação;
Tumor identificado e caracterizado por biópsia de fusão RMN + ecografia, que permite mapear com precisão a localização e extensão da lesão;
Doentes que valorizam fortemente a preservação da função sexual e urinária e que aceitam um programa de vigilância pós-tratamento rigoroso — porque a vigilância, neste contexto, é parte integrante do tratamento.
A IRE pode também ser considerada em doentes com recidiva local após radioterapia — um cenário clínico particularmente desafiante, onde as opções convencionais são limitadas e a morbilidade dos tratamentos de resgate é muito elevada. Os estudos publicados reportam controlo local em cerca de 78% dos casos neste contexto, o que representa um resultado muito relevante para doentes que, de outro modo, teriam poucas alternativas viáveis.
Pelo contrário, a IRE não é adequada para doentes com doença localmente avançada (invasão da cápsula prostática ou das vesículas seminais), metástases ganglionares ou à distância, ou tumores de alto grau (ISUP 3-5) sem avaliação multidisciplinar prévia. A honestidade nesta avaliação é, para mim, inegociável.
O ponto de partida para qualquer candidato à IRE é uma biópsia de fusão de alta precisão, que na nossa prática é realizada com taxa de infecção próxima de zero. Pode saber mais sobre este exame na nossa página dedicada à biópsia de fusão.
A Minha Experiência Como Pioneiro da IRE em Portugal
Desde que introduzi a Electroporação Irreversível em Portugal, em 2016, acompanhei de perto a evolução desta técnica — não apenas como utilizador clínico, mas também como formador de outros especialistas. Em setembro de 2024, fui convidado a actuar como mentor em intervenção IRE no Athens Medical Center, na Grécia, partilhando a experiência acumulada ao longo de quase uma década de prática com equipas internacionais. É uma responsabilidade que assumo com muito cuidado.
Na minha consulta no Oporto Medical Centre, em Porto, recebo com frequência doentes que chegam com um diagnóstico de cancro da próstata localizado — muitas vezes acompanhados pelo cônjuge ou por um familiar próximo — e uma preocupação que atravessa quase todas as conversas: como tratar o cancro sem perder o que ainda tenho. É uma preocupação absolutamente legítima, e a IRE é muitas vezes a resposta que procuram.
O que distingue a abordagem do ITFP não é apenas a tecnologia disponível — é uma filosofia de tratamento que acredito ser a mais justa para o doente. O objectivo do tratamento oncológico não é apenas eliminar o tumor, mas fazê-lo causando o mínimo de perturbação possível na vida de cada pessoa. A IRE é, neste sentido, a expressão mais completa dessa filosofia: sem cirurgia aberta, sem radiação, com internamento inferior a 24 horas e com regresso à rotina diária em poucos dias.
Cada caso é avaliado individualmente, sem excepção. Nem todos os doentes são candidatos à IRE, e a minha responsabilidade é ser completamente honesto sobre isso. Mas para aqueles que são, esta técnica pode representar uma diferença genuína e duradoura na qualidade de vida — durante o tratamento e nos anos que se seguem.
Pode conhecer melhor o meu percurso e a minha abordagem clínica na página do Dr. Sanches Magalhães.
Perguntas Frequentes sobre IRE (Electroporação Irreversível) para a Próstata
A IRE é dolorosa? Como é o procedimento?
É uma das primeiras perguntas que me colocam — e compreendo porquê. O procedimento é realizado sob anestesia geral, pelo que o doente não sente qualquer desconforto durante a intervenção. As agulhas são inseridas através do períneo (a região entre o escroto e o ânus) sem qualquer incisão cirúrgica. Após o procedimento, a maioria dos doentes refere apenas um desconforto ligeiro a moderado, controlável com analgésicos orais comuns. A alta hospitalar ocorre tipicamente no próprio dia ou no dia seguinte.
Quais são os efeitos secundários da electroporação irreversível?
Os efeitos secundários da IRE são geralmente temporários e muito menos frequentes do que os associados à cirurgia radical ou à radioterapia. Os mais comuns incluem dificuldade urinária transitória nos primeiros dias após o procedimento — que se resolve habitualmente em uma a duas semanas — hematúria ligeira (sangue na urina) e desconforto perineal passageiro. Disfunção eréctil permanente e incontinência urinária são eventos raros nesta técnica, ocorrendo numa minoria de doentes, ao contrário do que sucede com a prostatectomia radical. Não são efeitos que deva esperar como inevitáveis.
A IRE cura definitivamente o cancro da próstata?
Devo ser transparente na resposta a esta pergunta, como sou com todos os meus doentes. A IRE é uma técnica oncologicamente eficaz para o cancro da próstata localizado de baixo a intermédio risco, com taxas de controlo local comparáveis às terapias radicais nos candidatos adequados. Contudo, como qualquer tratamento oncológico, os estudos mostram que não oferece garantias absolutas de cura definitiva. As taxas de recorrência no campo tratado situam-se entre 5% e 18% a três anos. Por isso, após a IRE, todos os doentes ficam integrados num programa de vigilância activa com doseamento regular do PSA e biópsia de controlo, que permite detectar precocemente qualquer recidiva e planear tratamento adicional se necessário. A vigilância não é sinal de falha — é parte do plano.
Posso fazer IRE se já fiz radioterapia?
Sim, em determinados casos — e esta é precisamente uma das situações em que a IRE pode fazer uma diferença real. A IRE é uma das poucas técnicas que pode ser utilizada em contexto de recidiva local após radioterapia, um cenário onde a cirurgia de resgate tem morbilidade muito elevada. Os dados publicados indicam controlo local em cerca de 78% dos casos neste cenário. A elegibilidade depende sempre da extensão e características da recidiva, pelo que é necessária uma avaliação individualizada com ressonância magnética e biópsia de fusão.
A IRE é comparticipada pelo SNS ou pelos seguros de saúde?
A comparticipação da IRE varia consoante o subsistema de saúde e a seguradora. Recomendo que contacte directamente a sua seguradora ou subsistema para obter informação actualizada sobre cobertura. Na nossa consulta, fornecemos toda a documentação clínica necessária para o processo de autorização prévia, e fazemo-lo com muito gosto. Para esclarecimentos adicionais, consulte a nossa página de perguntas frequentes.
Quanto tempo demora a recuperação após a IRE?
A recuperação após IRE é significativamente mais rápida do que após prostatectomia radical — e é frequentemente este o aspecto que mais surpreende os doentes de forma positiva. A maioria tem alta hospitalar em menos de 24 horas e retoma as actividades quotidianas ligeiras em dois a cinco dias. A actividade física moderada pode ser retomada ao fim de uma a duas semanas. A actividade sexual pode ser reiniciada tipicamente entre quatro a seis semanas após o procedimento, dependendo sempre da avaliação individual.
Dê o Próximo Passo: Marque a Sua Consulta
Se tem um diagnóstico de cancro da próstata localizado e quer saber se é candidato à IRE (Electroporação Irreversível), estou disponível para o avaliar pessoalmente. Na consulta — que pode fazer acompanhado por quem quiser — analisamos em conjunto os seus exames, discutimos todas as opções terapêuticas disponíveis e definimos, sem pressão e ao seu ritmo, o caminho que melhor se adequa à sua situação clínica e às suas prioridades de vida.
ITFP — Instituto de Terapia Focal da Próstata Oporto Medical Centre, Av. da Boavista 117, Sala 504, Porto



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